Não estrague a vibe: as lições de Madonna para a velhice

Este post, escrito com dor nas costas e crise de meia-idade, é uma resposta amorosa à niusleter da Adelaide Ivánova (assinem!) e uma resposta raivosa ao artigo de Glynnis MacNicol no New York Times. Mas também é oferenda de fã.

Still do vídeo do show de Madonna na Times Square, em Nova York. Caixa de som na xoxota.
Mother e seu bucetão sônico

Em alguma entrevista, não sei onde, Madonna disse que não se vê como uma cantora pop, mas como uma artista da performance que usa a música pop no seu trabalho.

Posso estar lembrando errado? Não sei. Mas vamos pressupor isso, e vamos argumentar que a diva pegou a raspa do tacho da Nova York de Andy Warhol no fim dos anos 1970 e começo dos 1980. O trabalho dela faz par (e fez parcerias) muito mais com os de Keith Haring e Jean-Michel Basquiat do que com os de Cyndi Lauper e Whitney Houston, por exemplo. Isso pode ser uma pista boa pra entender o álbum mais recente de mamãe, Confessions II, um trabalho que, me parece, é inteiro sobre envelhecer.

Começou a aula

Três questões mais teóricas, antes de começar:

1. Existe uma performance da velhice, assim como da juventude, assim como de qualquer identidade ou momento com que a gente se apresente em sociedade, nem que seja no quarto fechado, diante do espelho. Nada é natural, ao menos não tão natural quanto parece, e envelhecer tá no pacote. Quando a gente espera que alguém aja conforme a própria idade, o que tenta ditar essa conformidade é a expectativa de quem olha, e eu acho mais divertido colocar em questão esse lado, em vez de encasquetar com a ação de quem é olhade. Isso não quer dizer que não existam questões biológicas etc., mas elas são transversais ou secundárias, principalmente quando a gente fala de arte. Tudo aqui é artifício e, assim como a dor, o poeta finge a velhice que deveras envelhece.

2. ou 1.2. A velhice é um campo semântico. Pierre Bourdieu diz que é só “por um formidável abuso de linguagem” que a gente pode falar em “juventude” ou “velhice”, ainda mais em “os jovens” ou “os velhos”. É uma generalização útil, dependendo do que se quer dizer, mas que serve menos às experiências individuais do que aos grandes esquemas teóricos e às preocupações de políticas públicas. A arte não faz políticas públicas e não costuma ser boa em generalizar as coisas. Mesmo pra escutar Madonna, que é cheia das palavras de ordem, as fantasias normativas são mais bem apreciadas se a gente não esquecer que são, antes de tudo, isso: fantasias. Ainda bem, porque é justo por elas serem assim que eu posso lip-syncar “Express Yourself” no chuveiro.

3. ou 1.3. É incipiente, mas em certos recortes de certas classes sociais, em certos estratos urbanos, parece que a gente está vivendo uma extinção do ethos compartilhado da velhice. Está surgindo neste século uma velhice nova que, por enquanto, não tem comunhão, não tem performance em comum ou reconhecível. Nesses recortes sociais, você até pode se reconhecer como velha, mas não sabe o que isso significa. As gerações que inventaram a adolescência e a juventude na segunda metade do século XX agora precisam inventar a velhice. E esse também vai ser um processo doloroso, mas talvez tenha suas delícias, quem sabe até suas vantagens.

O tempo é um rio que não dá pra desengastalhar

Faz tempo que Madonna tem que lidar com os estigmas sociais da velhice associados ao corpo de mulher. Sempre vale lembrar essas páginas de uma revista, na época da turnê The Girlie Show (1993), quando a artista tinha 35 anos.

Página dupla da revista Smash Hits, de 1993, com a manchete "Calm down, grandma!" e uma foto enorme de Madonna jovem de sutiã preto.
Calma aí, vovó!

Mais recentemente, ela deu respostas artísticas pontuais a esses estigmas. Por exemplo, na modalidade eufórica, com “Bitch I’m Madonna” (2015) (no clipe, ela sobe um edifício inteiro em festa frenética e chega sozinha na cobertura, cantando “We go hard or we go home/ We gon’ do this all night long” – “A gente vai com tudo ou nem vai/ A gente faz assim a noite inteira”); ou, de um jeito melancólico, em “Medellín” (“I went back to my seventeenth year/ Allowed myself to be naïve/ To be someone I’ve never been” – “Eu voltei pros 17 anos/ Me permiti ser ingênua/ Ser alguém que eu nunca fui”). Esta é uma das canções de Madame X (2019), álbum em que a resposta começa a se tornar pergunta, numa nova fase da carreira da artista, em que o envelhecimento deixa de ser encarado como ataque externo e começa a ser investigado como potência criadora. A Celebration Tour (2023-4) também faz parte desse movimento; mas Confessions II parece ser a primeira formulação densa dos processos mais trabalhosos da velhice. Vamos aos exemplos:

Tudo esmaece

A perda pela morte não é novidade em Madonna. Desde o trauma inaugural da morte precoce da mãe, que ela escolhe como começo de sua identidade, passando pela juventude na Nova York dos anos 1980, epicentro mundial da epidemia de aids. Esses fatos sempre estiveram presentes nos álbuns e nas performances, fossem elas shows ou entrevistas.

Na velhice, no entanto, a perda costuma adquirir outra qualidade. Ela é longa: seja porque a pessoa velha conviveu uma vida inteira com as perdas da juventude, seja porque perde pessoas que foram companheiras de uma vida inteira. O sentimento fica mais amplo, abarca mais momentos e mais aspectos da própria existência, o que, às vezes, parece facilitar que se encontre um sentido para a morte. É o que a gente nota quando compara “Live to Tell” (1986) e “In This Life” (1992) com “Fragile” e “Betrayal”, do álbum novo. Naquelas a perda era inesperada e absurda (“I was not ready for a war” – “Eu não estava preparada para uma guerra”; “Gone before he had his time […] What for?” – “Ele morreu antes que tivesse tempo […] Pra que isso?”); nestas, a perda está integrada à vida (“energy never dies/ This is just a portal we’re going through/ But still, it’s hard to let go” – “a energia nunca morre/ Aqui é só um portal pelo qual a gente está passando/ Mesmo assim, é difícil deixar ir”; “Open the dam, let the water crash in/ Let it go, let it go, let it go” – “Abra a represa, deixe a água desabar/ Deixe ir, deixe ir, deixe ir”).

Talvez a perda não seja menos violenta do que no passado, mas a violência poderá ser mais compreensível. “Understand your violence” (“Entenda a sua violência”), ela canta em “One Step Away”. Madonna mobiliza bem a sabedoria da velhice (que também é uma performance de sabedoria, geralmente ancorada no argumento de autoridade do “Só quem viveu sabe”), não só para a perda da morte. Em “Bizarre”, o casamento breve com Sean Penn (1985-1989) é cantado com a força do choque da paixão, revivido com intensidade, mas na fantasmagoria da lembrança (“He drove way too fast/ Shelby Cobra, wasn’t meant to last” – “Ele dirigia rápido demais/ O carrão dele não ia durar mesmo”). Outro lugar-comum da velhice: a presentificação intensa da memória. Revivir es vivir más, Hilda Hilst escreve em algum lugar.

Madonna pendurada num prédio na Times Square, em Nova York, no show de Confessions II para o Mês do Orgulho.

A um passo da sua liberdade

A faixa que abre o disco, “I Feel So Free”, dá o tom: equipara a liberdade à pista de dança, que concebe como um espaço sagrado, “a threshold”, um portal em que a linguagem do corpo é soberana e o corpo deixa de ser individual. É a dissolução no todo como experiência religiosa, expectativa da experiência da morte – depois que passarmos pelo portal da vida.

Freud falou que o envelhecimento é a experiência de “decadência e dissolução” do corpo. Madonna parece mobilizar positivamente esse imaginário, revertendo o limite do corpo (e ela tem falado bastante sobre como acabou a cartilagem dos joelhos, de tanto que dançou) em ação de transcendência.

Em Confessions II, o imperativo da festa, tão associado à juventude, se estende à vida toda: “Baby, free yourself and love is on the other side/ We only got all night so, baby, party all night long/ Party on and on” (“Baby, se liberte, o amor tá do outro lado/ A gente só tem a noite toda, baby, então festeja a noite inteira/ Bate esse cabelo sem parar”, ela canta em “Love without Words”).

Também por isso, embora seja um disco tão reverente e referente à noite, há uma linda profusão de auroras em tantas faixas. A manhã é um lembrete constante de que o fervo acaba, a balada fecha, a noite morre e a gente, toda acabada na ressaca, precisa esperar o metrô abrir pra voltar pra casa; mas também é um lembrete de que o escuro dá lugar à luz (“Even in the shadows/ Where there’s nowhere left to hide/ Nighttime comes before the dawn” – “Mesmo nas sombras/ Onde não tem onde você se esconder/ A noite vem antes da aurora”, em “One Step Away”). Tudo passa, tudo some: o presente é pouco e é raro, então você aproveita dele o máximo que pode.

Você tem que queimar como uma fogueira

É corriqueiro: a imagem do fogo como um resumo simbólico da vida, tanto pelo incontrolável, quanto pelo perigoso, quanto pelo fascinante, quanto pelo efêmero. Do Dicionário dos símbolos, de Jean Chevalier: “Como o sol com seus raios, o fogo com suas chamas simboliza a ação fecundante, purificadora e iluminadora. Mas também apresenta um aspecto negativo: obscurece e sufoca com a fumaça; queima, devora, destrói; o fogo das paixões, do castigo, da guerra”.

É uma das imagens mais recorrentes em Confessions II. “You gotta burn just like a fire/ But from within” (“Você tem que queimar como uma fogueira/ Mas de dentro”), ela canta em “Love without Words”. O sol e as estrelas também preenchem a noite, com os ponteiros astrológicos de “Good for the Soul” ou a luz diurna que aparece em “Love Sensation”. E eu nem vou falar do ânus solar aqui!

Frame de Confessions II - O Filme, minuto 1:50, Madonna com a xoxota luminosa em meio a cus de raio laser
Bataille via Madonna

A última faixa destoa do resto do álbum: de repente a gente está numa balada (não o fervo, mas a canção) melancólica, no ônibus de volta pra casa. De novo Madonna usa o expediente da memória, transportando a gente para a cabeça da menina recém-chegada em Nova York, lutando pra pagar o aluguel e sobreviver festejando. “The night is kind/ The day is blue” (“A noite é boa/ O dia é deprê”, mas também “O dia é azul”), e a conclusão em forma de refrão: “Everything fades away/ Except for you, you, you, you” (“Tudo esmaece/ Menos você, você, você, você”), ela diz para a menina. Quando o refrão reaparece, para concluir a música (e o álbum), a menina, como exceção, desaparece – afinal, “Everything fades away/ Everything fades away”. Tudo passa, some, finda. A mulher velha, olhando a menina, tem essa dupla consciência: de que a resiliência do eu que não some, que resiste contra todas as adversidades, é tão verdadeira quanto o desaparecimento de tudo, inclusive, inevitavelmente, desse eu eterno.

A filha de Madonna, Lola León, canta para a mãe na faixa anterior, “The Test”: “I’m not so different, time is knocking on my doorstep” (“Eu não sou tão diferente, o tempo tá batendo na minha porta”). O tempo, esse perseguidor, é uma angústia para a filha jovem. Mas, em “Good for the Soul”, a mãe sábia ensina: “Time is a river we cannot unwind/ Don’t forget that/ That is good for the soul/ To let down your hair and breathe in the air” (“O tempo é um rio que não dá pra desengastalhar/ Não esqueça isso/ Que é bom para a alma/ Soltar o cabelo e respirar no ar”).

Não tente me distrair com números

Considerações finais. Apesar de Confessions II falar de velhice o tempo todo, Madonna não usa essa palavra nem nenhuma correlata. Talvez vá chegar o momento (e eu espero muito mais álbuns, pfvr!) em que ela resolva cantar a idade abertamente, com números e sem decote, como esperam dela. Mas Madonna raramente faz o que esperam dela. Talvez ela só continue a envelhecer (o que será inevitável enquanto vivas estivermos) e a compor sua obra artística, pop experimental no som do tabu quebrando.

Em “Bring Your Love”, parceria com a jovem e recém-chegada Sabrina Carpenter, a letra de Madonna ensina pras novinhas: “I don’t want your judgement or your expectations/ Don’t wind me up like a toy/ Your vision of me is a killer of joy” (“Não quero o seu juízo ou as suas expectativas/ Não me engastalhe como um brinquedo/ A sua visão de mim é uma empata-foda”, em tradução sempre livre).

Pra mim, que sou fã cacura e aprendiz, com as costas travadas e sobrepeso sem levantar da cama, mas lip-syncando “Danceteria”, tá sendo bonito ver como Madonna inventa uma velhice que sirva pra si, pendurada de um prédio da Times Square, com joelheiras, avaliando em retrospectiva uma vida muito louca que ainda não acabou – e reafirmando, em cada momento, aquela conclusão de um discurso forte dela recebendo um prêmio: “Eu acho que a coisa mais controversa que fiz foi continuar aqui”.

Imagem de Madonna ao lado da DJ Honey Dijon no Club Confessions, em Londres, em 2/7/2026.
Dançar até o fim.

Máscara do luto

Sem querer, acabei revisitando uma resenha que escrevi faz quase 20 anos, quando o Masp fez uma retrospectiva do artista japonês Tatsumi Orimoto.

Não lembro onde conheci o trabalho dele, que participou do grupo Fluxus, em Nova York, junto com Yoko Ono, Joseph Beuys, Nam June Paik e uma galera. Na época eu já estudava velhice, e é óbvio que a série Art Mama me chamaria a atenção.

Nela, Orimoto criava situações estranhas com sua mãe idosa, retratando-a entre o cômico e o afetuoso. Segundo ele, a ação tinha um quê de terapêutico, tanto no sentido clínico quanto pessoal. Odai Orimoto sofria de Alzheimer e estava ficando surda, o que dificultava muito a comunicação com o filho. Art Mama era uma tentativa de criar outros canais de comunicação, ao mesmo tempo que mantinha a mãe ativa e engajada em atividades físicas, mentais, sociais.

Googlando, descobri que Odai morreu em 2017, e Tatsumi, no começo de 2025. Fiquei triste com atraso, se bem que essa formulação seja tosca.

Art Mama sempre me divertiu e me deixou desconfortável ao mesmo tempo. Não acho que dê pra gostar dessa série sem um tanto de sadismo, e desgostar por princípios morais seria uma bobagem. Tatsumi, parece, tinha um engajamento real não só nos cuidados com a mãe, mas com a comunidade de pessoas vivendo com Alzheimer e outras formas de demência. Não era um aproveitador de velhinhas. Ele chamava o que fazia de Communication Art.

Fantasmas

Um dos trabalhos feitos após a morte de Odai é o vídeo Ghost of Art-Mama, em que Tatsumi caminha pela cidade com uma máscara da mãe morta.

De novo, a sensação ruim, mas agora mais triste: as fotos de Art Mama, com Odai viva, são geralmente coloridas e cartunescas. Em Ghost of Art-Mama, o rosto dela é um buraco preto e branco flutuando numa cidade cinza, mas sobretudo afixado num corpo em luto. A cabeleira branca de Tatsumi (mais envelhecida, simbolicamente, que os cabelos grisalhos que Odai ainda ostentava nos últimos anos de vida) enfatiza a caricatura que o artista incorpora ao performar a velhice, encurvado e de bengala. Mas, se a velha viva pode ser cômica, uma mãe morta dificilmente vai ser motivo de risada.

Além de tudo, o trabalho ficou exposto numa galeria em Tóquio em 2021, numa vitrine, pra ser visto da rua – naqueles tempos de distanciamento social e morte a cada esquina. Tempos cinzentos.

Vestir o cadáver da mãe como forma de manter ela viva não é exatamente uma novidade no nosso repertório audiovisual. O subtexto sinistro, porém, tem quase nada em comum com Psicose, de Alfred Hitchcock (que tem suas próprias questões mal resolvidas com o envelhecimento). Embora Ghost of Art-Mama seja um pouco tétrico, assim como um pouco cômico, é principalmente uma obra de contemplação fúnebre.

Um dos últimos trabalhos que Tatsumi fez com Odai viva foi o vídeo Beethoven Mama, em que (é o que se diz) ele fica massageando o couro cabeludo da mãe enquanto os dois escutam a Quinta sinfonia de Beethoven entre paredes cobertas de folhas de calendário.

Acho que o que me atrai tanto na obra dele, no geral, é essa afirmação estridente da presença do corpo. Uma presença incômoda, engraçada, surpreendente. E o que me deixa triste nesses últimos trabalhos é a afirmação do corpo ausente e amedrontador do Tempo, que termina na busca melancólica de um corpo físico que se despiu da matéria.

A festa do adeus

A velhice cantada por Cartola tem uma mistura inusitada de melancolia e felicidade. A primeira canção de Cartola 70 anos (1979) é a linda “O inverno do meu tempo”, em que a imagem óbvia da última estação do ano é evocada, mas não para falar de morte e decadência. O inverno do tempo do sambista “começa a brotar, a minar”, numa força inaugural rara nas caracterizações da velhice.

Mas não é, tampouco, uma oposição simples à tristeza do fim. Ele não supercompensa a morte anulando a velhice. Pelo contrário: a acentua. “Os sonhos do passado/ no passado estão presentes” e “Já não sinto saudade/ Saudades de nada que vi”. A velhice é absoluta, rege a vida do poeta, e ele está em paz com o que geralmente é caracterizado como coisa ruim, porque o inverno não é ruim. E é cheio de alvoradas.

A juventude, sim, é penosa. “Chorando eu vi a mocidade perdida”, ele canta em “O sol nascerá”. O mundo é um moinho que destrói os sonhos, as esperanças, os amores. E a vida, enquanto acontece, é possibilidade de tristeza: “Infelizmente/ não iremos ao fim da estrada/ eu bem sei, estás cansada/ e eu também cansei”. Mas o imperativo da aurora não deixa a tristeza ser ponto final: “Faz o que te digo, amor/ vá, voltes daqui/ quero te ver contente/ te ver alegre, sempre a sorrir”.

Para Cartola, a velhice não é fim. Faz parte da vida, e a vida é começo e recomeço. O que a velhice traz é a consciência do começo e de sua potência, sempre presente, de alegria. Por isso tanta “esperança” nas letras, tanta aurora, alvorada. “Na madrugada iremos pra casa cantando.”

“Apesar de todo erro/ espero ainda/ que a festa do adeus/ seja a festa da vinda”, ele canta no disco de 1974. Cuja primeira faixa, “Disfarça e chora”, dá o valor da tristeza: “Todo pranto tem hora/ e eu vejo o seu pranto cair/ no momento mais certo/ […] e o seu pranto, ó triste senhora/ vai molhar o deserto”. A alegria encontrada na velhice é feita da tristeza da vida, que o poeta nos aconselha a também desfrutar, pois ela não dura pra sempre. “Aproveita a voz do lamento/ que já vem a aurora.”

As nuvens não existiam

O quinto episódio da sétima temporada de Black Mirror (possível alerta de spoiler) talvez seja, desde o começo da série, o que mais põe em cena a velhice, e só por causa dele eu percebi o quanto Black Mirror foca em em crianças, jovens, adultos, mas quase nunca em velhos.

É uma coisa que tenho pensado: no admirável e temível mundo novo que a revolução digital põs em movimento, pouco se ficcionaliza a velhice. Isso quando o mundo passa por uma transição demográfica que é particularmente visível em países como o Brasil. A população envelheceu, o caos climático se instaurou, a inteligência artificial veio pra ficar e tudo isso está razoavelmente azeitado. Há robôs e implantes e ar-condicionado sendo criados e comercializados para os velhos, que também vão começar a trabalhar cada vez mais e por mais tempo, dando início ao que, de vez em quando na mídia, se chama com entusiasmo cínico de “economia prateada”. Etc. etc. Mas os produtos culturais (por falta de termo melhor) que reimaginam o nosso presente distópico raramente focam na velhice. Ou é impressão minha?

Pra Black Mirror, pelo menos, a impressão serve. “San Junipero”, na terceira temporada, é uma das exceções, mas ali a tecnologia é o que ela seria nos nossos melhores e menos inspirados sonhos, mantendo vivas, jovens e saudáveis as nossas consciências enfim libertas dos corpos decrépitos. As duas personagens velhas são interpretadas, na maior parte do episódio, por atrizes jovens, avatares dos anos dourados das mulheres que, fora da nuvem, só vivem por cuidado paliativo.

Um filme de 2009 do Bruce Willis tem um plot análogo. Assisti uma vez faz muito tempo e achei legal. No RottenTomatoes a aprovação crítica é de 37%. Mas o Bruce Willis sempre vale a pena.

O personagem dele é um agente do FBI (rs) que vive num mundo em que as pessoas ficam dentro de casa, num casulo de realidade aumentada, enquanto vivem por procuração por meio de robôs que saem por aí experimentando as coisas, fazendo os afazeres. Isso faz com que todo mundo esteja seguro dentro de casa e, se o robô se envolve num acidente, a pessoa que está vivendo por meio dele segue intacta e só precisa comprar outro robô pra voltar à vida pública. Obviamente, todo mundo escolhe o robô mais gostoso possível pra se representar na sociedade. Igual os avatares de “San Junipero” (e a semelhança dos enredos para por aí). Obviamente, podendo escolher, todo mundo é jovem. Quem não seria?

Muitas interseções queer, raciais, capacitistas etc. nessa premissa. Quem escolheria ser gay? E trans? E não branco? E PCD? E gordo? A lista não termina. Quem escolheria ser corcunda, gago, ter pau pequeno? E velho? A resposta talvez não seja tão óbvia. Talvez seja.

Mas voltando pra “Eulogy”, o episódio da nova temporada: ele se destaca porque o personagem velho é velho mesmo, e mais ainda: é analógico. De repente chega uma bugiganga na casa dele que vai pedir que ele digitalize as memórias e as fotos guardadas em caixas de sapato no sótão. A bugiganga pede lembranças do fim dos anos 1980, e ele diz: “Naquela época não existia nuvem”. Nada sofreu upload.

O Paul Gianatti tem só 57 anos, mas, pro que importa, o personagem dele já é velho, ao menos no sentido de que vive um mundo que está deixando de existir. É mais velho ainda porque, diferente das velhas de “San Junipero”, ele não quer se transportar para a utopia da juventude. O episódio começa com ele cuidando das rosas de um jardim e se machucando com o dedo no espinho. Como faziam os fenícios.

Isso me fez pensar, millennial em crise de meia idade que estou, que, dentro de algumas décadas, em o mundo não acabando etc., vão morrer as pessoas que conheceram o planeta antigo, sem lixo espacial nem sinal de Wi-Fi. Isso, lógico, sem considerar a grande parcela do mundo que até agora não foi colonizada pelo chip. E sem contar os velhos que farão o upgrade pra nuvem. Que, aliás, é um amontoado de trombolhos pesadíssimos, tão distantes dos nossos dedos quanto o algodão frio que passeia sobre as nossas cabeças num dia bonito.

Mistério renovado

O cachorro deu um pulinho e já chegou no chão ganindo, passou o dia mancando, depois ficou bem. Panguá fez 12 anos na semana passada. Continua jovial, com jeito quase de filhote. Eu chequei a patinha dele comentando: o corpo não acompanha, né, bebê?

Sempre lembro de um velho professor de Educação Artística (quando você tem 14 anos, um homem de 40 é muito velho) dizendo que ele só lembrava da idade que tinha quando se olhava no espelho ou quando precisava correr. Confrontado com limitações inesperadas ou um reflexo que não condizia com a autoimagem é que a idade se realizava. Fora isso, ele era sem tempo, eterno, e a eternidade é (por quê?) jovem.

Foi com as costas travadas há uma semana sem nenhum motivo especial, a vó de 90 anos indo e voltando de previsões de morte e a senioridade cronológica do meu cachorro virando mais um retorno solar que eu terminei de ler Meu irmão, eu mesmo, mais uma tour de force do incansável João Silvério Trevisan, a bicha-mor. É um livro bem fácil de descrever, mas indescritível no que realmente importa, e tem vários momentos de desabafo autobiográfico com relação aos sustos do envelhecimento. Como estas linhas que grifei, nas últimas páginas:

[…] conseguir decifrar parte desse mistério medonho que vejo diante do espelho todas as manhãs, cada dia mais velho e mais enigmático para mim mesmo.

O velho axioma da contracultura “não confie em ninguém com mais de 30 anos” se refere justamente a uma parte da vida em que a maioria das pessoas (é o que se espera e o que se exige) abdicam do mistério. O mistério não paga contas, não te deixa levantar de manhã e tomar banho e escovar os dentes e preencher outros requisitos que tradicionalmente fazem com que uma pessoa seja considerada adulta.

Neste primeiro quarto de século que acaba, a dissolução do trabalho tem exigido que crianças e pessoas velhas, sumariamente excluídas da vida econômica nos tempos mais regulados do capitalismo industrial, monetizem e sejam monetizadas. O Instagram e o Tik Tok, quando jogam o tempo livre no mercado de ações, extinguem o habitat natural do mistério, que precisa se refugiar em lugares mais inóspitos, tipo os esgotos do burn out. O rato feio e a pomba suja, afinal, ainda são triunfos gloriosos da natureza.

Minha avó moribunda tá encarando o mistério inevitável da morte. Trevisan, que é um desajustado exemplar, tem a sorte de um mistério crescente como companheiro de vida. O medo é adubo, o dejeto faz crescer. Meu cachorro late para o céu quando troveja. São lindos os versos finais do primeiro poema do Dao de jing:

玄之又玄
衆妙之門

mistério que se renova no mistério…
porta de todo deslumbramento

(tradução de Mario Bruno Sproviero)