Máscara do luto

Sem querer, acabei revisitando uma resenha que escrevi faz quase 20 anos, quando o Masp fez uma retrospectiva do artista japonês Tatsumi Orimoto.

Não lembro onde conheci o trabalho dele, que participou do grupo Fluxus, em Nova York, junto com Yoko Ono, Joseph Beuys, Nam June Paik e uma galera. Na época eu já estudava velhice, e é óbvio que a série Art Mama me chamaria a atenção.

Nela, Orimoto criava situações estranhas com sua mãe idosa, retratando-a entre o cômico e o afetuoso. Segundo ele, a ação tinha um quê de terapêutico, tanto no sentido clínico quanto pessoal. Odai Orimoto sofria de Alzheimer e estava ficando surda, o que dificultava muito a comunicação com o filho. Art Mama era uma tentativa de criar outros canais de comunicação, ao mesmo tempo que mantinha a mãe ativa e engajada em atividades físicas, mentais, sociais.

Googlando, descobri que Odai morreu em 2017, e Tatsumi, no começo de 2025. Fiquei triste com atraso, se bem que essa formulação seja tosca.

Art Mama sempre me divertiu e me deixou desconfortável ao mesmo tempo. Não acho que dê pra gostar dessa série sem um tanto de sadismo, e desgostar por princípios morais seria uma bobagem. Tatsumi, parece, tinha um engajamento real não só nos cuidados com a mãe, mas com a comunidade de pessoas vivendo com Alzheimer e outras formas de demência. Não era um aproveitador de velhinhas. Ele chamava o que fazia de Communication Art.

Fantasmas

Um dos trabalhos feitos após a morte de Odai é o vídeo Ghost of Art-Mama, em que Tatsumi caminha pela cidade com uma máscara da mãe morta.

De novo, a sensação ruim, mas agora mais triste: as fotos de Art Mama, com Odai viva, são geralmente coloridas e cartunescas. Em Ghost of Art-Mama, o rosto dela é um buraco preto e branco flutuando numa cidade cinza, mas sobretudo afixado num corpo em luto. A cabeleira branca de Tatsumi (mais envelhecida, simbolicamente, que os cabelos grisalhos que Odai ainda ostentava nos últimos anos de vida) enfatiza a caricatura que o artista incorpora ao performar a velhice, encurvado e de bengala. Mas, se a velha viva pode ser cômica, uma mãe morta dificilmente vai ser motivo de risada.

Além de tudo, o trabalho ficou exposto numa galeria em Tóquio em 2021, numa vitrine, pra ser visto da rua – naqueles tempos de distanciamento social e morte a cada esquina. Tempos cinzentos.

Vestir o cadáver da mãe como forma de manter ela viva não é exatamente uma novidade no nosso repertório audiovisual. O subtexto sinistro, porém, tem quase nada em comum com Psicose, de Alfred Hitchcock (que tem suas próprias questões mal resolvidas com o envelhecimento). Embora Ghost of Art-Mama seja um pouco tétrico, assim como um pouco cômico, é principalmente uma obra de contemplação fúnebre.

Um dos últimos trabalhos que Tatsumi fez com Odai viva foi o vídeo Beethoven Mama, em que (é o que se diz) ele fica massageando o couro cabeludo da mãe enquanto os dois escutam a Quinta sinfonia de Beethoven entre paredes cobertas de folhas de calendário.

Acho que o que me atrai tanto na obra dele, no geral, é essa afirmação estridente da presença do corpo. Uma presença incômoda, engraçada, surpreendente. E o que me deixa triste nesses últimos trabalhos é a afirmação do corpo ausente e amedrontador do Tempo, que termina na busca melancólica de um corpo físico que se despiu da matéria.

As nuvens não existiam

O quinto episódio da sétima temporada de Black Mirror (possível alerta de spoiler) talvez seja, desde o começo da série, o que mais põe em cena a velhice, e só por causa dele eu percebi o quanto Black Mirror foca em em crianças, jovens, adultos, mas quase nunca em velhos.

É uma coisa que tenho pensado: no admirável e temível mundo novo que a revolução digital põs em movimento, pouco se ficcionaliza a velhice. Isso quando o mundo passa por uma transição demográfica que é particularmente visível em países como o Brasil. A população envelheceu, o caos climático se instaurou, a inteligência artificial veio pra ficar e tudo isso está razoavelmente azeitado. Há robôs e implantes e ar-condicionado sendo criados e comercializados para os velhos, que também vão começar a trabalhar cada vez mais e por mais tempo, dando início ao que, de vez em quando na mídia, se chama com entusiasmo cínico de “economia prateada”. Etc. etc. Mas os produtos culturais (por falta de termo melhor) que reimaginam o nosso presente distópico raramente focam na velhice. Ou é impressão minha?

Pra Black Mirror, pelo menos, a impressão serve. “San Junipero”, na terceira temporada, é uma das exceções, mas ali a tecnologia é o que ela seria nos nossos melhores e menos inspirados sonhos, mantendo vivas, jovens e saudáveis as nossas consciências enfim libertas dos corpos decrépitos. As duas personagens velhas são interpretadas, na maior parte do episódio, por atrizes jovens, avatares dos anos dourados das mulheres que, fora da nuvem, só vivem por cuidado paliativo.

Um filme de 2009 do Bruce Willis tem um plot análogo. Assisti uma vez faz muito tempo e achei legal. No RottenTomatoes a aprovação crítica é de 37%. Mas o Bruce Willis sempre vale a pena.

O personagem dele é um agente do FBI (rs) que vive num mundo em que as pessoas ficam dentro de casa, num casulo de realidade aumentada, enquanto vivem por procuração por meio de robôs que saem por aí experimentando as coisas, fazendo os afazeres. Isso faz com que todo mundo esteja seguro dentro de casa e, se o robô se envolve num acidente, a pessoa que está vivendo por meio dele segue intacta e só precisa comprar outro robô pra voltar à vida pública. Obviamente, todo mundo escolhe o robô mais gostoso possível pra se representar na sociedade. Igual os avatares de “San Junipero” (e a semelhança dos enredos para por aí). Obviamente, podendo escolher, todo mundo é jovem. Quem não seria?

Muitas interseções queer, raciais, capacitistas etc. nessa premissa. Quem escolheria ser gay? E trans? E não branco? E PCD? E gordo? A lista não termina. Quem escolheria ser corcunda, gago, ter pau pequeno? E velho? A resposta talvez não seja tão óbvia. Talvez seja.

Mas voltando pra “Eulogy”, o episódio da nova temporada: ele se destaca porque o personagem velho é velho mesmo, e mais ainda: é analógico. De repente chega uma bugiganga na casa dele que vai pedir que ele digitalize as memórias e as fotos guardadas em caixas de sapato no sótão. A bugiganga pede lembranças do fim dos anos 1980, e ele diz: “Naquela época não existia nuvem”. Nada sofreu upload.

O Paul Gianatti tem só 57 anos, mas, pro que importa, o personagem dele já é velho, ao menos no sentido de que vive um mundo que está deixando de existir. É mais velho ainda porque, diferente das velhas de “San Junipero”, ele não quer se transportar para a utopia da juventude. O episódio começa com ele cuidando das rosas de um jardim e se machucando com o dedo no espinho. Como faziam os fenícios.

Isso me fez pensar, millennial em crise de meia idade que estou, que, dentro de algumas décadas, em o mundo não acabando etc., vão morrer as pessoas que conheceram o planeta antigo, sem lixo espacial nem sinal de Wi-Fi. Isso, lógico, sem considerar a grande parcela do mundo que até agora não foi colonizada pelo chip. E sem contar os velhos que farão o upgrade pra nuvem. Que, aliás, é um amontoado de trombolhos pesadíssimos, tão distantes dos nossos dedos quanto o algodão frio que passeia sobre as nossas cabeças num dia bonito.

Barbie em: A princesa e a velha

A história de Sidarta Gautama é famosa: príncipe riquíssimo, ele vivia dentro dos castelos do pai, cercado e protegido das coisas feias e difíceis do mundo. Um dia, decidiu sair da gaiola dourada para ver o que havia lá fora.

Foram três escapadas na companhia de um subordinado didático. Na primeira, ele se deparou com um homem velho e ficou estupefato. Então aprendeu que as pessoas envelhecem, que o corpo se modifica e fragiliza1 com a passagem do tempo. Na segunda, encontrou um sanatório cheio de doentes, e aprendeu que o corpo humano pode ser acometido a qualquer momento por sofrimentos físicos indizíveis. Na terceira, passou por um cortejo fúnebre. Então aprendeu que todo mundo morre.

Ele decidiu nunca mais voltar ao palácio. Saiu por aí pra conhecer e entender as coisas do mundo. E um dia atingiu a iluminação e se tornou o Buda.


Barbie (2023), de Greta Gerwig, reconta essa história. Não necessariamente na mesma ordem.

O primeiro encontro dilacerante da personagem de Margot Robbie é com a morte, ou melhor, com o pensamento da morte. Assim como no caso de Sidarta, é um incômodo intuitivo que faz com que tudo pareça menos do que o necessário, e impõe-se a necessidade de conhecer algo mais.

Cena de Barbie. A jovem Margot Robbie dança sorrindo e pergunta: "Alguma vez vocês já pensaram na morte?".
“Alguma vez vocês já pensaram na morte?”

O grande encontro com a doença é o colapso da saúde mental, que resulta no anúncio publicitário da Barbie Deprimida (“ansiedade e ataques de pânico são vendidos separadamente”). Não vou escrever sobre isso, mas: se fosse um filme do século 20, talvez Barbie quebrasse uma perna ou pegasse uma gripe. Leitura relacionada: Neoliberalismo como gestão do sofrimento, organizado por Christian Dunker, Nelson da Silva Junior e Vladimir Safatle (ed. Autêntica, 2021).

Já a velhice chega ao conhecimento da Barbie em dois encontros: o segundo é com a Demiurga, quer dizer, a criadora do brinquedo, Ruth Handler, interpretada por Rhea Pearlman, que substituiu seu característico cabelo castanho encaracolado por uma densa cabeleira branca para compor a personagem. Ruth pega Barbie pela mão para acompanhar a boneca no destino que o filme lhe dá e, tal qual uma sábia avó, oferece a ela valorosas lições de vida.

Mas o primeiro desses encontros é mais favorável a um paralelo com a história de Sidarta: sentada num ponto de ônibus, Barbie olha para o lado e vê uma velha sendo apenas velha. De cabelo meio desgrenhado, blusa de frio, tiara brilhante e quase nenhuma maquiagem, ela levanta os olhos do jornal e as duas se encaram. Barbie diz, maravilhada: “Você é tão linda!”; e a velha responde, quase irritada com a obviedade: “Eu sei disso!”.


A personagem é interpretada pela figurinista Ann Roth, de 91 anos. Creditada no IMDB como The Woman on the Bench (A Mulher no Banco), Roth diz que, quando convidada por Gerwig, a diretora disse que ela interpretaria “uma Barbie real do mundo real”.

A cena não faz parte da sequência de acontecimentos de Barbie. Se tivesse sido excluída da versão final, o filme não perderia em intelegibilidade e a história continuaria sendo a mesma. Mas ela é, de algum modo, o resumo de tudo, ou, segundo Greta Gerwig, “o coração do filme”. As duas mulheres sentadas lado a lado se espelham, são variações de um mesmo personagem, mulher, ou ser humano, ou ideia de ser humano. E é talvez aí que a Barbie percebe que quer ser velha.

Ninguém quer envelhecer? Quando o ideal de beleza é transferido da jovem loira para a pessoa velha, o desejo de identificação também é. Querer ser velha é a grande descoberta da boneca. E, se a beleza é o fiel da balança, fica garantido que, assim como no slogan da Mattel, na visão de Greta Gerwig a velha é que é o símbolo de “tudo que você quer ser”.

Cena de Barbie. Ann Roth, velha de cabelos brancos e rosto enrugado, dá um meio sorriso para Margot Robbie, que está fora de foco.
Obviamente.

  1. Fragiliza? Leia a errata no post “Errata frágil” ↩︎

A velha vedete

Um dos melhores momentos de Dercy Gonçalves no cinema é o filme A grande vedete (1958), que ela protagoniza como Janete, uma atriz que não quer admitir que envelheceu. Seu assistente, Ambrósio (Humberto Catalano), e sua camareira, Fifina (Zezé Macedo), adulam ela e alimentam sua ilusão de ser um símbolo sexual à prova do tempo. Ambrósio, principalmente, enche o camarim de presentes de admiradores falsos e paga uma claque para bater palma bem alto, abafando o som das risadas quando Janete tropeça num degrau.

Aviso de spoilers. Apesar de velha e iludida, Janete não é uma vedete sem talento, muito pelo contrário. Sua jornada no filme consiste em perceber que as limitações corporais da idade (a visão debilitada, a dificuldade em completar certos movimentos, a falta de apelo sexual para o grande público) não têm relação com seu valor como artista. Estrelando a revista Saias curtas, por exemplo, ela é sucesso há vinte anos e continua sendo uma grande estrela, mesmo que tenha que substituir o sapato de salto por uma sapatilha mais confortável. Talvez os homens não desejem Janete, mas o público ama ela.

Furacão Dercy Gonçalves: Janete apresenta a música “Saias curtas”, de Lamartine Babo e Lyrio Panicali, no filme A grande vedete

Plano e contraplano

A velhice de Janete é o grande tema do filme. A maquiagem acentua as rugas e as expressões que Dercy, comediante refinadíssima (afinal, pode-se ser refinada até na baixaria), despeja, uma atrás da outra, no corpo de Janete dentro e fora do palco. O filme aproveita a atriz em inúmeros closes, e nos melhores momentos nós vemos no rosto de Dercy, simultaneamente, camadas superpostas de Janete: a atriz talentosa, a atriz que não está sabendo usar seu talento, a mulher orgulhosa, a mulher frágil e, enfim, a atriz séria sendo interpretada por uma comediante.

Imagem em movimento de Dercy Gonçalves interpretando a dançarina Janete num número de dança supostamente árabe. Close da atriz fazendo caras e bocas enquanto sua personagem tenta sensualizar.

Há momentos, contudo, em que não apenas nós e os outros coadjuvantes e figurantes da história de Janete percebemos a inadequação da velha. É no espelho do camarim que a vedete se encontra com algo que destoa da imagem que tenta projetar e incorporar; então muda o jogo de olhares e Janete, vista por todo mundo, finalmente enxerga a si mesma.

Quadro Vanitas, de Bernardo Strozzi, pintado em aproximadamente 1637. A pintura a óleo mostra uma velha vaidosa se arrumando em frente ao espelho. Ela é auxiliada por duas moças que riem.
Vanitas (A velha coquete) (c. 1637), de Bernardo Strozzi

O espelho tem uma presença expressiva nas elaborações artísticas da velhice. Como símbolo tanto da vaidade quanto do autoconhecimento, os autores de comédia o colocam em frente às pessoas velhas (às mulheres, principalmente) para mostrar para nós, o público, a evidente teimosia com que elas se agarram a uma posição social que não condiz com a imagem dos seus corpos. Ou, em chave trágica, para retirar a personagem da ilusão e mergulhar ela na triste, dura e inevitável realidade. No final de A grande vedete, Janete encontra esse espelho trágico.

Imagem em movimento. Janete, interpretada por Dercy Gonçalves, está vestida de bailarina, maquiada, e olha para o espelho com tristeza.

Ela está se arrumando para o último ensaio de seu próximo grande número sensual quando escuta, por acidente, Ambrósio dizendo que tem pena da velha iludida, para quem o palco é a única razão de viver. A revelação de que todos enxergam o que ela acreditava esconder, e de que ela é objeto de pena, não de admiração, faz com que Janete tenha um colapso nervoso seguido de uma compreensão lúcida de que precisa abdicar do papel de protagonista da peça e cedê-lo a uma artista jovem.

A nova peça estreia sem Janete e é um sucesso, com a consagração da jovem bailarina como a nova grande estrela. Mas, depois dos aplausos, em tom de bis, o público grita o nome de Janete. Surpresa, ela vai ao centro do palco, é ovacionada e, a pedidos, apresenta de improviso um de seus maiores sucessos. Descobrimos, enfim, que Ambrósio não precisava ter fingido as flores e contratado a claque. O “grande” do título do filme, que era uma ironia no começo, no final se revela uma coroação.

Dois contos de Samuel Rawet

Contos do imigrante, de Samuel Rawet, começa com dois contos. O primeiro se chama “O profeta” e começa num navio que chega da Europa, tudo é presumido: um judeu velho, todo coberto de sobriedade, se encontra com parentes que não via desde a infância, só por fotos. Eles se abraçam, ficam alegres com a chegada do estranho. Ele não fica muito.

O livro é de 1956 e o cenário é uma vida marcada por pogroms e campos de extermínio, fome, tristeza. Isso do lado europeu, pelo menos. Depois de muito tempo e pouca conversa, o velho começa a entender melhor onde se meteu: “Soube ser recente a fortuna do irmão. Numa pausa contara-lhe os anos de luta e subúrbio, e triunfante, em gestos largos, concluía pela segurança atual. Mais que as outras sensações essa ecoou fundo. Concluiu ser impossível a afinidade, pois as experiências eram opostas. A sua, amarga. A outra, vitoriosa. E no mesmo intervalo de tempo!? Deus, meu Deus! As noites de insônia sucederam-se”.

Aqui, no Brasil, os judeus eram pouco mais do que meros brancos, podiam prosperar. O velho europeu, aliás, só tem de “profeta” o apelido que recebe sem entender, pois não fala a língua. Circunspecto, barba branca e comprida, ele não participa da piada, mas percebe que, quando chega, os risos param.

O segundo conto também é sobre uma velha recém-chegada. Ida, de “A prece”, acabou ficando tempo demais na casa dos que a acolheram e, acabado o interesse pelas histórias e pela figura pitoresca da hóspede, ela se mudou para um quarto de cortiço, sozinha com suas tralhas. “Ida sentia um cansaço inundar-lhe a alma. Filhos, já os tivera, marido também. De tudo, só o retrato ficou na parede. E ela.”

Os vizinhos são de uma simpatia indiferente, com exceção do grupo de crianças que acha a velha engraçada, esquisita, gosta de provocá-la para ouvir os xingos em outra língua, atiram pedras nela. Inevitavelmente, as crianças criam fantasias de bruxa para falar sobre os costumes bizarros de Ida e convencem os adultos de que algo muito errado acontece no quartinho da estrangeira. É então que uma multidão invade o aposento. A velha, rezando e chorando os seus mortos, só percebe a situação quando encontra os rostos constrangidos dos vizinhos que, em vez de rituais satânicos e bebês mortos, só toparam com uma velha triste. “Isso é reza lá da terra deles”, alguém sussurra, e todos saem em silêncio.


Começar o livro com um conto sobre um homem e outro sobre uma mulher deve ter parecido muito lógico a Samuel Rawet, porque o século 20 tinha dessas: “homem” e “mulher”, combinados, pareciam dar a compreensão do todo da humanidade. Personagens velhos, por sua vez, dão a compreensão de certa humanidade: a dos sobreviventes de uma experiência bem específica de privação e tortura. Acabada a urgência do terror, não tendo nada além de seu corpo e suas perdas, esses velhos vêm dar numa terra em tudo estrangeira, onde mesmo as pessoas próximas vivem uma espécie de universo paralelo. (Se escrevesse hoje, talvez Rawet tivesse vontade de colocar seus personagens em contato com os desterrados da nossa própria terra. Não são e não eram poucos. À época, no entanto, parece que isso não lhe ocorreu.)

Os velhos de “O profeta” e “A prece” acumulam, na idade, a tristeza e o medo persistentes em uma vida inteira. Nessas circunstâncias, talvez eles fossem velhos ainda que fossem jovens. Já o irmão vitorioso é o contrário: jovem ainda que velho. Porque o tempo é medido em quantidade, mas também pode ser valorado em qualidade.