Do armário da artista saem muitas de suas memórias, vestidos que foram usados em performances grandiosas, iluminadas, em que a diva do palco é uma espécie de corpo arquetípico, ideal.
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Em Memória e sociedade: lembranças de velhos (1979), Ecléa Bosi defende que a memória é a “função social” dos velhos. “É o momento de desempenhar a alta função da lembrança. Não porque as sensações se enfraquecem, mas porque o interesse se desloca, as reflexões seguem outra linha e se dobram sobre a quintessência do vivido.” Teoricamente o velho, desobrigado das atividades cotidianas que ocupam os adultos, se voltaria para o passado para realizar “a religiosa função de unir o começo ao fim”.
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Phedra de Córdoba (1938-2016) relembra ao mesmo tempo que revive. Suas mãos reencenam os movimentos que ela fazia no palco.
Mas a reencenação é uma nova encenação. Não se trata de uma reprise ou uma cópia de segunda mão. O filme Phedra (2008), de Claudia Priscilla, explicita isso no salto do quarto da atriz para sua performance no palco, nos cortes que faz entre os momentos em que Phedra conta suas histórias e aqueles em que ela dança, canta, representa e toca castanholas.
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Dois momentos do vestido: guardado, ele é passado; no corpo, se faz presente. “Eu tinha um ciclone dentro de mim, como até hoje eu tenho”, diz Phedra. As memórias podem ser vestidas a qualquer momento, mas o corpo que as veste tem uma força contínua.
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Hilda Hilst, em Estar sendo. Ter sido: “revivir es vivir más”. Repetição é acúmulo, potência, intensidade.
Phedra pode ser visto no LGBTFLIX, plataforma de cinema que o #VoteLGBT preparou para a gente ver filmes durante a quarentena. Clique aqui para assistir.
Existem vários tipos de solidão. Talvez cada pessoa, sozinha, encontre um deles.
A escritora Miriam Alves contou na revista Piauí sobre o isolamento social durante o processo de criação de seu romance mais recente, Maréia: “A reclusão também me mostrou que a solidão, quando desejada, pode ser uma aventura transgressora numa sociedade que valoriza tanto o estar com o outro, ainda que em circunstâncias desagradáveis”.
Cinema mudo
Irene é sozinha. Ela mora numa casa ampla, afastada do barulho urbano, e faz as coisas sem pressa: escolhe o feijão, acende o cigarro, caminha pela rua vazia para comprar mantimentos. O curta-metragem que leva seu nome, dirigido por Patrícia Galucci e Victor Nascimento e lançado em 2011, invade a vida de Irene no fim de semana que ela recebe a visita da neta adolescente, que traz uma amiga para brincar na piscina e pernoitar.
As meninas são barulhentas e agitadas, correm pela casa aos risinhos, cochicham, se cutucam, se fazem cócegas. Mal olham para a velha, que cozinha o almoço e lava a louça como se esses dois núcleos pertencessem a filmes diferentes. Só de vez em quando é que Irene (ela mesma um núcleo inteiro) estende o olhar para além de seu filme e observa, atenta, sem interferir, o que se passa no filme das meninas.
A atriz Iná de Carvalho no curta-metragem Irene (2011)
Aos poucos vemos que a incomunicabilidade não tem nada de triste, e talvez nem se trate de falta de consideração da neta com relação à avó. A distância acontece naturalmente, ninguém força a barra para suprimi-la. Na falta de conexão entre os dois filmes que dividem o espaço da casa, mesmo o irritante ruído de fundo dos risinhos das meninas é uma inconveniência leve, que não vai durar mais que o fim de semana. E, uma vez que a câmera acompanha apenas a avó silenciosa, os diálogos entre as adolescentes se perdem na distância, não despertam interesse. É quase um filme mudo. É o filme de Irene, afinal.
Banho
O que fica cada vez mais evidente é que a velha gosta muito de ficar sozinha. Seu rosto melancólico forma sorrisos sutis quando ela aprecia algo com calma – o contato dos pés com a água da piscina, a visão dos corpos molhados e seminus das meninas, a masturbação durante o banho de banheira (cena raríssima no cinema: uma mulher velha, sem roupa, se masturbando, sem nenhuma ridicularização do prazer dela. Salva de palmas para a diretora, o diretor e a atriz Iná de Carvalho).
Toda essa umidade das cenas faz transbordar o erotismo do filme, que poderia estar contido no lesbianismo clichê entre ninfetas ou na perversidade possível do incesto entre avó e neta, mas se realiza, de modo inesperadamente original, no mais solitário dos prazeres. A longa cena da siririca de Irene deixa mais literal o que percebemos ao longo do filme: o prazer com que a personagem vive a solidão.
Enquanto o filme das meninas se desenvolve numa temporalidade que esperamos típica da adolescência, regida pela frivolidade e pelo encanto das primeiras vezes, o filme de Irene tem um tempo decantado, no qual mesmo a visão do colo nu da amiga da neta, apesar de inédita, adquire ares de rememoração. O curta-metragem, no entanto, encena esses lugares-comuns sem apelar para outro clichê: o da solidão triste da idosa. Isso dá também para nós, espectadores, a perspectiva de uma solidão alegre e prazerosa – aquela que pode ser uma aventura transgressora, como disse Miriam Alves.
Irene pode ser visto no LGBTFLIX, plataforma de cinema que o VoteLGBT preparou para a gente ver filmes durante a quarentena. Clique aqui para assistir.
Quando as pessoas descobrem que eu estudo a obra da Hilda Hilst, muitas vezes me perguntam: por onde começar a ler? A resposta varia muito. Hoje, vamos começar pelo fim.
Hilda Hilst em 1997. Foto: Éder Chiodetto
Ou um dos fins. Estar sendo. Ter sido foi o último livro inédito publicado enquanto Hilda ainda estava viva. A primeira edição (que continua sendo a melhor) é de 1997, da editora Nankin. Depois foi reeditado pela Globo nos anos 2000 (uma edição infelizmente cheia de erros que atrapalham um pouco a leitura) e, mais recentemente, no volume Da prosa, da Companhia das Letras.
Como quase todos os livros da Hilda, Estar sendo. Ter sido é esquisito e não pode ser encaixado sem problemas em um gênero literário. É um dos textos mais extensos da autora, mas tem o mesmo compasso fragmentado do resto da sua prosa. Quer dizer: a história vai engasgando, dando cavalos de pau, e o texto em prosa vai sendo interrompido de tudo quanto é jeito: com poemas, diálogos teatrais, desenhos, espaços em branco, referências bibliográficas, receitas de drinques (a quem se interessar) e receitas de suicídio (tomem cuidado!).
Mas não são meros experimentos formais, pelo menos não no sentido de que eles pudessem adquirir um protagonismo com relação à história. Em princípio, estamos diante de uma espécie de romance que nos coloca dentro da cabeça de Vittorio, um escritor velho e ranzinza que briga com a esposa e se muda com o irmão e o filho para uma casa na praia, onde passa os dias entre cachorros, gansos e livros.
Deus no meu buraco
Como os velhos são em geral considerados velhos, não pessoas, eles costumam ser encaixados em estereótipos mais ou menos constantes na televisão, na literatura, nas nossas conversas cotidianas. Quantas vezes a gente se refere a um velho ou uma velha no diminutivo, como velhinhos fofos? Pois Vittorio está mais pro oposto do “velhinho”, num outro estereótipo frequente: o do velho rabugento, desagradável, inconveniente e amargo.
duas criadinhas passaram rente a mim, olharam as pantufas e curvaram-se de tanto rir. ouvi as palavras “velho”, “gozado”, “sempre bêbado”. pensei tolas, xerecas fedidas e sempre criadinhas. pensei azedo também sobre a vida. pensei “triste, velhice”, “caralho murcho”, pensei “deus” e toda a asseclagem ao redor dele, chupando-lhe os dedões do pé.
A tristeza é uma das principais palavras do texto, mas ela nunca se resume à resignação. Vittorio está furioso – com a vida, com seu corpo, com Deus. Em seus textos, Hilda Hilst vira e mexe briga com Deus, se revolta com Sua ausência e, quando O encontra, acusa Seu sadismo. Para um final acerto de contas, Vittorio procura Deus por toda parte:
Rosinha, ele está aí dentro, estou sentindo onde seo Vittorio, onde? no meu cu, idiota, ah, está bem, não chora, já vi que você não entende nada de deus, eu precisava é falar com Dom Deo, mostrar-lhe o único buraco aqui na Terra onde deus habita. não fala assim, seo Vittorio, é pecado mortal. deus no meu buraco, é pecado mortal? ah, não é não, Rosinha, deus gosta de tudo, de tudo o que criou, nada é triste, nem escuro, nem amerdalhado, nem fede à bosta nem a malvavisco, tudo é bonito porque vem de deus, viu Rosinha? ele é um dorso sem cara, um chifre negro, um olho azul azul que lindo, seo Vittorio…
Nesse acerto de contas, o que Vittorio parece sentir, mais do que tudo, é pressa. A vertigem do texto encena isso. A proximidade da morte, muito mais palpável na velhice do que em outras fases da vida (embora a morte, vocês sabem, esteja sempre próxima), faz com que tudo pareça urgente e o tempo de vida, para qualquer coisa, não seja suficiente.
afinal fomos feitos pra quê, hen? afinal você aprende aprende, quando está tudo pertinho da compreensão, você só sabe que vai morrer. que judiaria! que terror! o homem todo aprumado diz de repente: quase que já sei, e aí aquela explosão, aquele vômito, alguns estertores, babas, alguns coices, um jato de excremento e pssss… o homem foi-se.
Foto de Catherine Krulik utilizada na capa da primeira edição de Estar sendo. Ter sido
Que se dane
Mas o fim da vida e a chegada da morte também despertam a vontade de, uma última vez, experimentar coisas novas. “[…] deve ser bom na velhice isso de alguém te enrabar”, diz Vittorio. O texto bizarro de Hilda Hilst, talvez um dos mais experimentais de sua extensa obra, foi anunciado pela escritora como sua despedida definitiva da literatura: “É deslumbrante tudo o que escrevi, mas já escrevi tudo o que devia”, disse ela numa entrevista de 1998. E continuou:
Como eu disse antes, eu já escrevi coisas deslumbrantes. Quem não entender, que se dane! Não tenho mais nada a ver com isso. Eu não sinto que esteja num mundo que seja o meu mundo. Devo ter caído aqui por acaso. Não entendo por que fui nascer aqui na Terra. Com raríssimas exceções, não tenho nada a ver com este mundo.
A desistência (e, em casos como esse, a banana dada ao mundo) é mais um desses traços frequentes em discursos de velhos. E é frequente também que, como em Vittorio, ela ande passo a passo com o desejo de que tudo se acabe, a pressa para fazer tudo a tempo e o desejo de que tudo continue, numa contradição que só é aparente para quem nunca encarou a finitude.
Depois dessa entrevista, a gente sabe, Hilda seguiu escrevendo. Em 2004 ela morreu sem ter lançado nenhum outro livro, e até hoje apareceram apenas alguns inéditos curtos, o que leva a crer que Estar sendo. Ter sido tenha sido, de fato, sua carta de despedida. Para entrar nessa obra complexa, com certeza é uma boa porta. Mas, concordo com Hilda, todas as outras portas servem igualmente. São todas, cada uma à sua maneira, deslumbrantes.