O medo devora a alma

Outro filme que coloca em cena a velhice e o exílio, desta vez em personagens diferentes: Ali, o marroquino que foi trabalhar e tentar viver em Munique, e Emmi, a alemã que envelheceu sozinha na sua própria terra.

Cena de O medo consome a alma, de Fassbinder.
Emmi (Brigitte Mira) entra no bar dos marroquinos

Eles se encontram numa noite chuvosa, no acaso do abrigo em um bar, e começam a se fazer companhia. Em pouco tempo, estão apaixonados e se casam. Então a vida de Emmi vira um inferno: de adorável velhinha ela se transforma em puta velha aos olhos da vizinhança, de seus filhos e das colegas de trabalho. Em todo lugar aonde vai, o casal encontra rostos raivosos e sorrisos de desprezo.

O filme é Angst essen Seile auf (O medo consome a alma, 1974), de Reiner Werner Fassbinder. O título, diz Ali, é um provérbio marroquino, e o filme abre com uma epígrafe também proverbial – uma frase que aparece antes em Le plaisir (O prazer, 1952), de Max Ophüls, e Vivre sa vie (Viver a vida, 1962), de Jean-Luc Godard –: “Das Glück ist nicht immer lustig”, a felicidade nem sempre é alegre.

Cena de O medo consome a alma
Dançando com Ali (El Hedi ben Salem) pela primeira vez

Algum paraíso

A felicidade para Emmi e Ali é um romance simples, um cobertor de orelha, a sensação de pertencer em algum lugar, com alguém.

A tópica do amor reencontrado na velhice quase sempre acompanha o pressuposto do conforto no desterro, reforçando certas premissas do amor romântico, como a fusão com a pessoa amada, que se torna um oásis em meio à rejeição do encontro amoroso pela sociedade. “O objeto amado é o centro de um paraíso”, escreveu Novalis. A velhice, porém, entorta o ideal romântico porque o prazer e o desejo do corpo velho não costumam fazer parte dessa idealização.

Fassbinder entorta ainda mais a situação com diálogos secos e atuações que raramente encostam no melodrama. A escolha de Munique como o paraíso que serve de cenário ao filme acrescenta o horror da História à estória de amor, com referências frequentes ao passado nazista e desvelamentos de sua permanência no presente. A cidade foi palco da tentativa de golpe que levou Hitler à cadeia, em 1923, e do massacre nos Jogos Olímpicos de 1972. O primeiro evento marcou a vida de Emmi, cuja família fez parte do Partido Nazista (“naquela época, todo mundo fazia”) e cujo pai desaprovava seu casamento com o finado marido, um polonês; o segundo evento marca a vida de Ali, com a crescente islamofobia que adapta o racismo fascista à democracia burguesa.

Como parte de seu roteiro de coragem, Emmi e Ali vão comemorar o casamento no restaurante favorito de Hitler na cidade, onde tudo é tão caro que nenhum dos dois sabe o que significam os itens do menu. A pequena poupança que ela, uma faxineira, e ele, um mecânico, conseguem fazer com horas extras e gastos contidos é esbanjada num almoço que é mais um oásis estranho de uma história de amor a contrapelo.

Cena de O amor consome a alma
Festa no restaurante de Hitler

Amor antifascista

Com o tempo, os alemães se veem forçados a fazer vista grossa para o casamento não convencional de Emmi. Didaticamente, Fassbinder mostra que os benefícios de ter por perto uma velhinha amável e solícita são maiores do que o prazer de desprezar uma velha puta. Mostra também que Emmi, apesar de velha, continua alemã, assim como Ali, apesar de marroquino, continua sendo jovem.

O tema do filme, se é que a gente pode falar assim, acaba sendo quão estrangeiros são o amor e a felicidade que brota dele – num terreno que se agarra como pode à aridez e à infertilidade. E também: como a coragem é necessária para que a alma esteja inteira.

Cena de O medo consome a alma
Em casa