Judi Dench e o segundo turno

“Envelhecer? Uma porcaria”, diz Judi Dench quando perguntada por uma repórter. “Não pense muito nisso”, ela aconselha. “Eu só continuo tentando fazer as coisas, sabe.” A atriz conta que já não consegue atuar em peças, filmes, não consegue ler. Mal enxerga! Ouve rádio, porque é o que consegue fazer. “Tenho que aguentar, não tem jeito.”

A voz dela é seca, sem sentimentalismo. A postura é pragmática – e bem-humorada. Ela ri bastante quando conta que, por não distinguir rostos, cumprimenta pessoas desconhecidas achando que as conhece. No Instagram, um dos comentários pondera: “Mas continua uma senhora inteligente, muito bonita e elegante”. Alguém responde: “infelizmente isso n consola, n ajuda em nada, n faz diferença alguma na vida dela…”

No geral, os outros comentários concordam com este. Uma enfermeira, que na bio do perfil se diz especialista em saúde do idoso, escreve: “Envelhecer é triste demais! Pode ser lindo, a história de uma vida, mas biologicamente é triste demais!”. Uma comentarista responde: “concordo com você, do auge dos meus 61 anos, só piora!”. Outra, cristã, pedagoga, doutoranda em Ciências da Educação, concorda e acrescenta: “É a consequência do pecado, senão seríamos jovens eternamente”.

O segundo turno das eleições e o meu próprio envelhecimento me fazem pensar em algo pro qual nunca atentei: o quanto se sobrepõem as identidades velha e PCD. A reclamação de Judi Dench, afinal, não é estar velha, mas estar cega. Velhice, porém, acaba sendo uma espécie de termo guarda-chuva para as mais diversas deficiências físicas e mentais.

Talvez haja uma correlação estatística (mais pessoas fiquem cegas aos 80 do que aos 20) e isso justifique a síntese. Pode ser, mas desconfio que não seja bem assim. A morte, por exemplo, parece ter sido sempre associada à velhice, mesmo em períodos de grande mortalidade de crianças ou de jovens, por guerra ou doença. Mesmo nesses momentos, a personificação da morte costuma se dar num corpo velho, assim como as deficiências são atribuídas à culpa e ao pecado. A realidade histórica e os fatos pouco têm a ver com essas imposições do imaginário (que em alguns casos a gente pode chamar também de preconceito).

As imagens de pessoas velhas indo votar com andador, cadeira de rodas, na maca, sendo carregadas por escadas até a urna – e para votar num octogenário PCD! – me chamaram a atenção para as interseções da velhofobia e do capacitismo, coisa que, em tanto tempo estudando velhice, eu nunca tinha botado reparo, algo que só pode ser explicado pela minha própria visão capacitista de mundo.

Quanto a Judi Dench, a resposta dela também é um olé na repórter e nas nossas expectativas de redenção de uma fase da vida – e uma condição corpórea – que nos enche de pavor. O mau humor é um direito inalienável do ser humano.